quero-te assim…

o município paulista de pirajuí viu nascer, em 1929, o menino chauki maddi, descendente de imigrantes libaneses que lá se estabeleceram. de família de músicos, o menino chauki começou uma carreira artística aos dez anos, apresentando-se em festas da sua escola. na década de quarenta, chauki começou a cantar e organizar as festas onde se apresentava. depois, foi para são paulo, capital, e, em seguida, para o rio de janeiro, quando e onde começavam a surgir os primeiros ensaios do que mais tarde seria a bossa nova. cantor e compositor, chauki trocou seu nome para tito madi e dele são músicas como chove lá forabalanço zona sulcansei de ilusõesnão diga não e outras de muito sucesso. considerado um cantor romântico, fez parcerias com maysaelizeth cardosonora neysilvinha telles, além de se apresentar em dupla com agostinho dos santos, o poetinha vinicius de moraesribamar, gravando inúmeras músicas também romãnticas de tom jobimdolores duranantonio mariajohnny alf, de forma que não é possível se falar em bossa nova sem falar em tito madi.

aqui, a inspiração de tito madi se junta à interpretação de lisa ono, cantora brasileira que mora em tokyo, onde vive desde os dez anos de idade, e no rio de janeiro. de voz cativante, que lembra as primeiras cantoras da bossa nova, lisa mostra na televisão japonesa um pouco daquilo que é sucesso hoje no japão: a bossa nova dos anos 60!…

quero-te assim

quero todo teu olhar no meu,
quero todo teu amor pra mim,
quero ser todinho teu, enfim,
fazer feliz e ser feliz…
quero estar contigo a dançar,
com tua mão acariciando a mim,
o meu rosto encostadinho ao teu
assim… assim… assim…

e, depois, se entre nos houver,
a distância a nos separar,
quero que teu pensamento vá
me procurar… me procurar…
eu também estarei pensando em ti,
com o meu amor que Deus mandou, enfim,
deixa-me abraçar-te agora, assim,
assim, assim, assim…

(Tito Madi)

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a volta…

quero ouvir a tua voz
e quero que a canção seja “voce”…
quero, cada vez que espero,
desesperar, se não te ver…
é triste a solidão,
é longe eu não te achar,
é lindo o teu perdão,
que festa é o teu voltar!…

mas quero que tu me fales
e que tu me cales, caso eu perguntar
se o que te fez mais linda ainda
foi a tua pressa de voltar…
levanta e vem correndo,
me abraça e, sem sofrer,
me beija longamente,
o quanto a solidão
precisa p´ra morrer…

(Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli)

1922…

o ano é 1922. o deputado estadual rodrigo terra cambará, bisneto do famoso capitão rodrigo cambará, havia renunciado ao seu mandato ao final de um enérgico discurso em que se pôs na oposição ao então presidente da província do rio grande do sul, antonio augusto borges de medeiros. de volta a santa fé, rodrigo inicia uma campanha política para eleger josé francisco de assis brasil na presidência da província, em lugar de borges de medeiros que queria se reeleger a qualquer custo. a campanha em santa fé foi dura e suja até o dia da eleição que deu vitória esmagadora a borges de medeiros. mais tarde, uma revolução tentaria, à bala e nas coxilhas, o que as urnas não conseguiram.

inquieto com a situação, rodrigo cambará tentou por todos os meios divulgar a candidatura de assis brasil entre os santafesenses. de hábitos extremados, rodrigo lança mão até mesmo do tipógrafo arão stein, comunista convicto, para imprimir O Libertador, panfleto libertário que visava a convencer seus concidadãos das intenções de assis brasil e para tentar neutralizar os violentos ataques pessoais feitos por amintas camacho, dono d´A Voz da Serra e porta-voz do violento intendente de santa fé, laco madruga e seus capangas.

numa noite, entra no porão d´O Sobrado, residência dos cambará, um dos amigos de rodrigo de nome roque bandeira, uma espécie de filósofo local que vivia com o pouco dinheiro que o pai, fazendeiro rico, lhe dava. encontra stein terminando de imprimir o último número d´O Libertador e o provoca:

“- Assalariado da burguesia!

eram amigos. a conversa continua com provocações de ambas as partes. ao final, bandeira diz:

“- Sem remorsos?

O judeu voltou o rosto para o amigo.

Por que havia de ter remorsos?

Ora, Rodrigo vai te dar de presente as armas com que atacarás a classe a que ele pertence…

Stein encolheu os ombros.

Ele sabe. Não escondi as minhas intenções. Deves compreender que o doutor Rodrigo não me leva a sério ou, melhor, a burguesia não nos leva a sério. Acham que estamos brincando.

É nisso que está toda a vantagem de voces: a irresponsabilidade nacional. Oh! somos todos bons moços, nada é sério, ninguém mata ninguém, o país foi descoberto por acaso, a abolição decretada porque a princesa Isabel tinha bom coração, a República proclamada porque enpurraram o Deodoro. Tudo termina em abraços, em Carnaval… porque é sabido que brasileiro tem bom coração…

Stein parecia escutá-lo sem interesse.

Vou te dizer uma coisa, Bandeira. Componho e imprimo estes artigos de jornal e boletins como se tudo fosse literatura infantil, sabes? Contos da carochinha. É por isso que faço este trabalho sem problemas de consciência.

Em suma, todos os meios servem a voces, contanto que levem à ditadura do proletariado, não?

E por que não? ´Um comunista deve estar preparado para fazer todos os sacrifícios e, se necessário, recorrer mesmo a toda espécie de estratagema, usar métodos ilegítimos, esconder a verdade, a fim de penetrar nos sindicatos e permanecer neles, levando avante a obra revolucionária.` Sabes quem disse isto? Lênin.

De sorte que para voces não existe ética nem moral…

Claro que existe. Só que nada tem a ver com a ética e a moral da burguesia. Nossa moral e nossa ética estão a serviço da causa do proletariado, da luta de classes. Em suma, para nós é moral e ético tudo o que nos ajudar a destruir o regime capitalista explorador, a unir o proletariado do mundo e, consequentemente, a criar a sociedade comunista do futuro. Não te parece lógico?

Roque cuspiu fora o toco de cigarro.

Não estou certo disso.

(Érico Verissimo – O tempo e o vento – Parte III, vol. 1 O Arquipélago, Edição comemorativa do Centenário de Érico Verissimo, Cia. das Letras, SP, 2005 )

haunted heart…

nem só em palácios medievais e casas antigas podem surgir assombrações. muitas vezes, os nossos próprios fantasmas são mais aterradores que qualquer outro fenômeno paranormal, ou de materialização, como queiram. nossos pensamentos sobre coisas reais que nos assustam, ou nos deixam temerosos por razões que desconhecemos, ou fingimos desconhecer, são mais fortemente presentes nas nossas mentes e podem nos dar motivos de sobra para acreditar nesses fantasmas, ou até mesmo criá-los para nos assustar.

mas, por que essa fantasmagórica lenga-lenga agora nesse blog, no qual, de uns tempos para cá, só se lê (boa, espero) poesia? bem, voces já podem adivinhar que vem mais poesia, não é mesmo? e é exatamente isso o que vai acontecer aí abaixo. a preleção é em razão de recentes depoimentos de amigos chegados que relatam a aparição de fantasmas com os quais conviveram por algum período de suas vidas e de um outro tanto de “almas penadas” que restaram após esse convívio…

de 1947, haunted heart, escrita por arthur schwartz & howard dietz, fala de um coração assombrado por um fantasma within. procurei um video com esta música para postá-lo, mas, em não o achando, decidi pela publicação da letra apenas. a música foi gravada por frank sinatra, ella fitzgerald e, há bem pouco tempo, por jane monheit. esses nomes já devem ser suficientes para demonstrar que não é uma música qualquer. a letra vai aqui.

haunted heart
in the night, though we´re apart,
there´s a ghost of you within my haunted heart…
ghost of you, my lost romance,
lips that kiss, eyes that dance….

haunted heart don´t let me be…
dreams repeat a sweet and lonely song to me…
dreams are dust, it´s you who must be-long to me
and thrill my haunted heart…
be still, my haunted heart…

you go to my head…

escrita em 1939, essa canção ainda faz sucesso sempre que é tocada. a música é de joe fred coots e a letra de haven gillespie. ela foi gravada por judy garlandbillie holiday, frank sinatra, louis armstrong, art pepper, linda ronstadt e, recentemente, por rod stewart.

you go to my head and you linger like a haunting refrain,
and i find you spinning ’round in my brain
like the bubbles in a glass of champagne…

you go to my head like a sip of sparkling Burgundy brew
and i find the very mention of you
like the kicker in a julep or two…

the thrill of the thought that you might give a thought to my plea
cast a spell over me,
still i say to myself – get a hold of yourself –
can’t you see that it never can be…

you go to my head with a smile that makes my temperature rise,
like a summer with a thousand Julys
you intoxicate my soul with your eyes…

though i’m certain that this heart of mine
hasn’t a ghost of a chance in this crazy romance
you go to my head…

(Haven Gillespie & Joe Fred Coots)

comemoração…

republico aqui um post que se tornou profético. aparentemente sem pretensões, ele acaba de ser confirmado. dedico-o a uma grande amiga, menina brilhante, que termina essa semana (cum laudæ) o seu MBA na Columbia University. o post original é de 29/Jan/2007.

a sonnet to integrate derivatives…
(a timeless response)

if these humble and crooked lines present
all thy regards, woes and sorrow,
in them we must feel the scent
of the poets of tomorrow…

to rhyme is all but gift,
to engender words ain’t prize,
words that’re meaningfullessly adrift
without an aim, or unwise…

but, lo, thou shall be
the poet of a new breed,
with numbers as thy seed.

the swaps, thou shall see,
will be thy perfect rhymes,
for Wall St., a million times…

via crucis…

I. A covardia dos homens.

Olho a multidão à minha frente e o homem que a ela se dirige aos gritos. Meu pensamento está distante e não lhe ouço a voz. O céu de nuvens carregadas está cinzento. Ele se vira para mim e, num gesto teatral, lava as suas mãos. Pela primeira vez eu ouço o que ele diz e me chama de inocente. Por que eu seria inocente? De que me acusam?

II. A minha cruz.

Saimos do salão e descemos as escadarias. Com minhas mãos amarradas a um tronco, eu me desequilibro. Os homens que me cercam me auxiliam. Chegamos ao pátio e, lá, retiram as cordas que me amarram. Dão-me uma estrutura de paus amarrados em cruz. Dizem-me que esta será a minha cruz e que devo carregá-la de agora em diante. Ela é pesada e eu, fraco por essa agonia durar desde ontem, quando me acorrentaram no Jardim, cambaleio e não consigo erguê-la. Um dos homens que me conduz me ajuda a levantá-la, mas deixa todo o peso recair sobre os meus ombros. Tenho fome e sede. Cravam-me na cabeça um anel feito de várias voltas de um caule espinhoso. Além do meu suor, agora perco o meu sangue.

III. Minha queda.

O que eu fiz para passar por isto? Não me recordo de ter levantado a voz recentemente contra quem quer que fosse. Não ofendi meus amigos e nem dos meus inimigos me queixei. Cheguei aqui para as festas. Descansava quando me chegaram e me acorrentaram. Eu transpirava de nervoso, tanto que enxarquei minha túnica e meus pés marcavam o caminho com a umidade do suor que me escorria pelas pernas. Não me deram o que beber desde então. Nem do que comer. Ainda sinto fome e sede. Atordoado, prostro-me no chão e a cruz cai sobre mim. Sinto dores em todo o corpo. Ajudam-me e eu levanto. Volto a sustentar o peso daquela estrutura. Alguns homens me empurram entre a multidão. Meus pés estão feridos. Minha boca está seca.

IV. Entre a multidão, eu vejo a minha mãe.

A mulher que chora entre os homens e mulheres que, gritando, me cercam é a minha mãe. Chora copiosamente. Faz uma figura triste. Eu a vejo e lembro de quando eu, menino, corria até ela para aplacar minha sede e minha fome. Não a deixam se aproximar de mim, mas ela grita o meu nome. Eu sorrio para ela. Nos olhamos por alguns segundos e ela compreende a minha dor. Não sei por quanto tempo terei que suportar esse castigo, nem o que me aguarda ao fim dele.

V. Um homem é chamado para me ajudar.

Do meio da multidão, aqueles que me obrigam a esse sacrifício retiram um pobre inocente para me ajudar a carregar o peso sobre as minhas costas. Eu fico de pé e tento aliviar a dor que sinto nas minhas costas, nos meus ombros. O tempo passa e a sede e a fome aumentam. Não entendo porque querem me poupar do peso. Peço água e riem de mim.

VI. Outro rosto conhecido.

Com o estranho a me ajudar, posso ficar de pé e olhar aqueles que gritam contra mim. Reconheço o rosto daquela mulher que se aproxima. Ela me enxuga o suor do rosto e me sorri. A suavidade e o frescor daquele tecido macio me dão uma agradável sensação. Refletido nos seus olhos eu vejo o meu rosto inchado. Ela me mostra o pano molhado que ela passou na minha testa. Tento passá-lo nos meus lábios ressecados. Empurram-me para frente. Mandam-me ajudar o homem que carrega a cruz por mim. Agora, somos os dois a carregá-la.

VII. A segunda queda.

Não resisto ao peso e me desequilibro novamente. Tombo e isso irrita meus algozes. Chicoteiam-me as costas e as pernas. Levanto-me e torno a cair. Minhas pernas tremem. Parece que já nem transpiro mais.

VIII. Uma casa. 

Passo pelas mesmas ruas que percorri no dia de ontem, de manhã. Naquela taberna, eu fiz uma refeição há dois dias. Ainda lembro do rosto das mulheres que me serviram. Elas estão à porta da casa e olham espantadas para a minha figura. Aquela ali me deu vinho a beber, a outra me trouxe um naco de pão e um caldo quente para eu me aquecer. A mais velha é a dona da taberna. Eu as olho e lhes imploro com os olhos. Umas me viram o rosto. Outras choram. Eu sinto dor e sede.

IX. Nova queda.

Começamos a subir uma ladeira que leva ao alto do monte. Tremem as minhas pernas. Treme o meu corpo inteiro. A sede não passa. Estou tonto. Não compreendo as palavras dirigidas a mim. Meus ouvidos doem. Minhas orelhas estão cheias do meu sangue coagulado que escorreu do alto da minha cabeça ferida pelos espinhos. Uma agonia profunda abate o meu corpo. Vou ao chão numa nova queda. O homem que me auxilia também cai com o súbito peso da cruz sobre as suas costas. Finalmente me trazem um pano molhado e eu o espremo na boca. Mas não é água que me cai na língua e, sim, um líquido grosso, salgado e amargo como vinagre. Cuspo tudo ao chão. Não vejo mais a minha mãe. Onde ela estará? O que estará pensando?

X. As minhas roupas.

Paramos no alto do monte. A cruz cai sobre o meu peito. Minhas roupas estão em farrapos. Eles me despem e me deixam apenas um pano amarrado na cintura. Todos gritam à minha volta. Não sei o que irão me fazer, mas nada poderá ser tão doloroso quanto o que já passei.

XI. Os ferros.

A cruz foi deitada no chão. O homem que me ajudava sumiu. Deitam-me, agora, sobre ela e amarram os meus braços e as minhas pernas. O Sol no meu rosto e o sangue coagulado nas minhas sombrancelhas não me deixam ver o que acontece ao meu lado. Pelo menos não tenho que carregar o peso da cruz que está sob mim. De repente, uma dor lancinante e uma batida de ferros. Sinto os ossos se quebrando quando minha mão direita é trespassada por um cravo, tão grosso que toma quase toda a palma da minha mão. Mais sangue jorra. Tenho as mesmas sensações desagradáveis quando repetem na mão esquerda o que me fizeram com a direita. Ainda tenho sede. Respiro profundamente e tento pensar o que fiz para merecer isto. É, então, que juntam meus pés e cravam-lhes mais um ferro. A cruz é erguida entre outras duas que lá já estavam quando chegamos. A dor é insuportável. Meus braços me sustentam. Meus pés queimam. Pendo a minha cabeça para o lado. Avisto, então, a minha mãe. Não sei quantas horas se passam. Todos me olham, inclusive os dois homens que me ladeiam. Olho para o céu de nuvens carregadas. Chove. A chuva lava o meu corpo cansado e me molha os cabelos. Umas gotas de chuva escorrem para dentro da minha boca e eu as sorvo, mas sem avidez. Não consigo erguer minha cabeça. Mas já não sinto dor. Observo os que me cercam. Fecho os olhos. Não vejo mais nada. Sinto que algo roça o meu peito e sinto um alívio imediato de tudo aquilo.

XII. Meu sono.

Sinto que me carregam para algum lugar. Não vejo nada. Quero abrir os olhos e não consigo. Quero perguntar se tudo acabou, mas minha voz não sai. Enrolam-me em um pano macio e frio. Continuo dormindo.

XIII. Minha cama.

Um calor profundo me cerca. Estou ali e mal posso me mexer. Parece que estou sob toneladas de terra. a pressão sobre o meu peito me desencoraja.

XIV. O despertar.

Acordo e já se passaram alguns dias. Quantos, não sei dizer. Levanto e dobro o pano que me envolvia. Saio para procurar os amigos. Ainda tenho sede.