2015…

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2015? 2015 foi o ano em que eu pensei que tu havias te escondido em hong-kong para sempre. tu sumiste e não mais me respondeste os e-mails. o meu computador de pulso perdeu a sua carga de bateria várias vezes (e olha que, naquela época, elas já duravam uma semana!) a esperar por notícias tuas. e pensar que, ao publicar o teu primeiro livro tu me havias convidado para o lançamento! mas eu não pude ir. meu médico havia me proibido de viajar por causa das minhas dores nas costas. sabe como é… a idade chega e as recomendações médicas aumentam na mesma proporção. no entanto, mesmo sem comparecer, imaginei ouvir tuas palavras de agradecimento aos presentes. imaginei, como sempre, o teu olhar arguto a prescutar o ambiente, a determinar teus passos dali em diante.

nunca entendi bem este teu abandono, esta ausência que pensavas merecer. a nada te apegavas, ou, ao mínimo sinal de que o perigo da capitulação andava próximo, sacavas a tua ausência. não, não era desprezo, bem sei. era o teu medo de te vires cercada. nunca entendi, porém posso compreender os motivos. era a tua liberdade que vias ameaçada. mas eu jamais pensei em ameaçá-la. eu apenas queria a mesma atenção que me deste quando me conheceste.

2015? mal sabia eu que morreria três anos depois do teu súbito desaparecimento. mas foi bom pensar, durante este tempo, que eu poderia te rever a qualquer momento. isto me motivou por dois longos anos. no terceiro ano, já sem muitas esperanças de te encontrar quando fizesses os teus quarenta anos – ah! como serias aos quarenta anos? – meus dedos se enrijeceram aos poucos. havia deixado de lado o computador de pulso e passei a usar uma antiga caneta sobre o velho papel, pois, se era difícil que tu me respondesses os e-mails, mais difícil ainda seria eu usar o pequeno teclado. comecei a escrever tudo o que eu pensava ali mesmo, no papel. talvez, um dia, tu o encontres perdido numa gaveta e possas ler nele os pensamentos que eu tive até então. entre o papel e eu, eles fluíam vagarosamente, tão vagarosamente que se espalhavam pelo ar do meu quarto. a morte me levou antes de te reencontrar, mas os meus pensamentos ficaram por lá, a aguardar que os teus olhos os leiam ou, quem sabe, a penetrar nos teus pulmões ao aspirar o ar daquele quarto. ou, se de tudo tu não apareceres mais, talvez que os olhos e os pulmões de uma outra pessoa possam deles fazer melhor uso.

ps: tu te lembras de 1993? tom ainda era vivo.

sem você,
sem amor,
é tudo sofrimento,
pois você é o amor
que eu sempre procurei em vão,
você é o que resiste
ao desespero e à solidão,
nada existe e o tempo é triste
sem você…

meu amor, meu amor,
nunca te ausentes de mim,
para que eu viva em paz,
para que eu não sofra mais,
tanta mágoa assim, no mundo
sem você…

(Tom Jobim & Vinicius de Moraes)

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