disseste-me (encore)…

parece-me que estamos fadados a sempre rememorar as nossas lembranças, quando não os erros que cometemos. da mesma forma, acabamos por repetir nossos posts, seja lá por que motivo fôr. quando lancei este blog, minha intenção era que, a cada dia, eu teria algo novo para comentar. nem sempre a nossa vida é assim tão cheia de novidades. nem sempre o mundo se enche de notícias que nos motivem um comentário que seja, uma crítica. dei-me, hoje, então, ao dúbio prazer de rever alguns escritos meus. entre eles, este que aqui vai e que me fez, ao lê-lo, ter vontade de republicá-lo. aos que se incomodam com o passado, peço desculpas, mas não resisti…

disseste-me dos campos de trigo
e da cor dos teus negros cabelos.
disseste-me do infinito e do tempo.
disseste-me de uma dor
e de um pensamento.
disseste-me, pela lágrima,
de um antigo tormento.
disseste-me de outras histórias
recheadas de elementos.
disseste-me dos caprichos,
das cidades, dos teus planos,
de como irias passar os teus últimos anos.
disseste-me da poesia
que cercava o teu dia
e das horas em claro
que passavas a temer.
disseste-me da tua infância
naquela fazenda distante,
onde as tuas lembranças ainda residem.
disseste-me das tuas vitórias
e das tuas derrotas.
disseste-me do sono que te rondava.
disseste-me, com carinho,
da neve caída na grama.
disseste-me da hera que brotava nas paredes,
disseste-me do fim da tua vida,
sem mesmo saberes se morrerás um dia.
disseste-me do beijo que eu jamais te neguei,
mas que também jamais te dei.
disseste-me dos amigos e da tua alegria
que eles notavam quando comigo falavas.
disseste-me da solidão quando estavas sozinha.
disseste-me das tuas festas,
do teu cansaço, dos teus sonhos.
disseste-me, contente, de uma conquista recente.
e te vi cair quando a notícia chegou.
disseste-me que era puro castigo
e que nada mais merecias.
disseste-me das injustiças do mundo.
disseste-me da frieza das decisões.
então, disseste-me que partirias
e eu jamais te veria.
parti antes de ti, pensando poupar-te e a mim,
mas logo vi o meu erro e ouvi-te.
disseste-me dos novos planos,
que eu te abandonei,
quando, na verdade, eu te deixei
por um grande sentimento.
disseste-me coisas imerecidas.
disseste-me que é frio o teu coração.
disseste-me que o amanhã não existe.
disseste-me que a vida termina antes de quatorze anos.

novamente eu parti,
dessa vez silenciosamente.
mas ecoam em meus ouvidos,
refletem-se nos meus olhos molhados
as tuas palavras ditas a mim e só a mim.
(e foi tudo tão breve…)

o que tu não me disseste,
porque tu não sabias,
é que fui eu quem te fez em flor.
fui eu quem cantou tua alma
e só eu te enxerguei por inteira.

hoje, já não me procuras,
mas tu, para mim, és toda a minha lembrança.
seguimos a “trilha menos usada”
e os teus olhos miram, agora,
outros e novos horizontes.
a mim, não dizes mais nada.
são os ventos dos trigais que me trazem
a lembrança dos teus cabelos negros,
e as nuvens que passam que me trazem
as imagens do teu vulto
e do teu sorriso aberto.
não posso ouvir os lamentos do mar
sem lembrar de ti;
tudo acontece exatamente
como tu, da primeira vez, me disseste…

(26/AGO/2007)

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