Archive for December, 2007

camões – sonetos – xv…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on December 15, 2007 by gilrang

parece que luis vaz de camões se tornou figura de grande popularidade aqui nesse blog. noto o grande número de vezes em que recebo visitas de gente da brava terra lusitana e, invariavelmente, nesses casos, os posts sobre camões estão sempre a receber um enorme contigente de leitores. em agradecimento a esses abnegados leitores, escolhi um outro soneto camoniano para hoje…

busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

olhai de que esperanças me mantenho!
vede que perigosas seguranças!
pois não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

mas conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde;
vem não sei como; e dói não sei porquê.

(Luis de Camões)

camões – sonetos – xxiii…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on December 15, 2007 by gilrang

cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou-te a ti na terra sepultura,
por que me falte a mim consolação.

eternamente as águas lograrão
a tua peregrina formosura:
mas enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minha alma te acharão.

e, se meus rudos versos podem tanto,
que possam prometer-te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,

celebrada serás sempre em meu canto:
porque, enquanto no mundo houver memória,
será a minha escritura o teu letreiro.

(Luis de Camões)

camões – sonetos – xxxii…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on December 15, 2007 by gilrang

porque quereis, Senhora, que ofereça
a vida a tanto mal como padeço?
se vos nasce do pouco que eu mereço,
bem por nascer está quem vos mereça.

entendei que por muito que vos peça,
poderei merecer quanto vos peço;
pois não consente Amor que em baixo preço
tão alto pensamento se conheça.

assim que a paga igual de minhas dores
com nada se restaura, mas deveis-ma
por ser capaz de tantos desfavores.

e se o valor de vossos amadores
houver de ser igual convosco mesma,
vós só convosco mesma andai de amores.

(Luis de Camões)

confissão…

Posted in from the heart..., j.g. de araújo jorge, poetry on December 13, 2007 by gilrang

e quem disse que este não é um blog sobre política? é! mas de política em alto nível, sub-reptícia, escondida em mal-traçadas linhas, pronta para saltar sobre o incauto leitor em um arroubo de radicalismo disfarçado em palavras bonitas. já que recordamos j.g. de araújo jorge, usemo-lo para exemplificar as minhas afirmações…

confissão

o que me impede de ser comunista
é essa alegria festiva, irreprimível
de qualquer posse.

são meus desejos, – quem sabe se meu egoísmo?
é esse prazer ingênuo de pensar que é meu
este pedaço de terra,
sem mesmo me lembrar de meus filhos
ou de meus inimigos.

é esse inútil pensamento de supor que tenho direito
de escolher meu destino
e até de não escolher nenhum.

a impressão de que talvez seja mais tolerável um mundo
onde subsiste a miséria, apesar de nossa luta,
do que um outro onde não subsista a liberdade
nem se possa lutar por ela.

(J.G. de Araújo Jorge)

recordando j.g….

Posted in from the heart..., j.g. de araújo jorge, poetry on December 13, 2007 by gilrang

recebi um comentário em um de meus posts sobre j.g. de araújo jorge. deu-me, então, vontade de recordar. passei no blog http://www.jgaraujo.com.br/ e reli alguns poemas. deles, colhi este para publicar hoje.

canto de ontem

vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.

que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por hábito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

e eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano…

vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.

(J.G. de Araújo Jorge)

lovers´ infiniteness…

Posted in from the heart..., john donne, poetry on December 3, 2007 by gilrang

if yet i have not all thy love,
dear, i shall never have it all;
i cannot breathe one other sigh, to move,
nor can intreat one other tear to fall;
and all my treasure, which should purchase thee,
sighs, tears, and oaths, and letters i have spent;
yet no more can be due to me,
than at the bargain made was meant.
if then thy gift of love were partial,
that some to me, some should to others fall,
    dear, i shall never have thee all.

or if then thou gavest me all,
all was but all, which thou hadst then;
but if in thy heart since there be or shall
new love created be by other men,
which have their stocks entire, and can in tears,
in sighs, in oaths, and letters, outbid me,
this new love may beget new fears,
for this love was not vow’d by thee.
and yet it was, thy gift being general;
the ground, thy heart, is mine; what ever shall
    grow there, dear, i should have it all.

yet i would not have all yet.
he that hath all can have no more;
and since my love doth every day admit
new growth, thou shouldst have new rewards in store;
thou canst not every day give me thy heart,
if thou canst give it, then thou never gavest it;
love’s riddles are, that though thy heart depart,
it stays at home, and thou with losing savest it;
but we will have a way more liberal,
than changing hearts, to join them; so we shall
    be one, and one another’s all.

(John Donne)