soneto da quarta-feira de cinzas…

muitas vezes, não é preciso deixar o carnaval passar para que nos deparemos com uma quarta-feira de cinzas…

por seres quem me foste, grave e pura,
em tão doce surpresa conquistada;
por seres uma branca criatura,
de uma brancura de manhã raiada;

por seres de uma rasa formosura,
malgrado a vida dura e atormentada;
por seres mais que a simples aventura
e menos que a constante namorada;

porque te vi nascer de mim sozinha,
como a noturna flor desabrochada,
a uma fala de amor, talvez perjura;

por não te possuir, tendo-te minha;
por só quereres tudo, e eu dar-te nada,
hei de lembrar-te sempre com ternura.

(Vinícius de Moraes)

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