o longe e o perto…

logo que a noite envolve em sombras o jardim,
parece que um mistério estranho me rodeia,
bocas de flores se entreabrem para mim,
e não sei de quem são estes passos na areia,
nem este murmurar de uma queixa sem fim.

como a seiva da terra alimenta as raízes,
uma seiva secreta enche meu coração.
deve ser o tal “gosto amargo de infelizes”,
plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
cujo travo provei em todos os países.

tudo que pude fiz para não ser assim,
mas não posso esquecer o longe pelo perto;
os que amei e perdi dormem dentro de mim;
a culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
logo que a noite envolve em sombras o jardim.

(Rui Ribeiro Couto)

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