disseste-me…

disseste-me dos campos de trigo
e da cor dos teus negros cabelos.
disseste-me do infinito e do tempo.
disseste-me de uma dor
e de um pensamento.
disseste-me, pela lágrima,
de um antigo tormento.
disseste-me de outras histórias
recheadas de elementos.
disseste-me dos caprichos,
das cidades, dos teus planos,
de como irias passar os teus últimos anos.
disseste-me da poesia
que cercava o teu dia
e das horas em claro
que passavas a temer.
disseste-me da tua infância
naquela fazenda distante,
onde as tuas lembranças ainda residem.
disseste-me das tuas vitórias
e das tuas derrotas.
disseste-me do sono que te rondava.
disseste-me, com carinho,
da neve caída na grama.
disseste-me da hera que brotava nas paredes,
disseste-me do fim da tua vida,
sem mesmo saberes se morrerás um dia.
disseste-me do beijo que eu jamais te neguei,
mas que também jamais te dei.
disseste-me dos amigos e da tua alegria
que eles notavam quando comigo falavas.
disseste-me da solidão quando estavas sozinha.
disseste-me das tuas festas,
do teu cansaço, dos teus sonhos.
disseste-me, contente, de uma conquista recente.
e te vi cair quando a notícia chegou.
disseste-me que era puro castigo
e que nada mais merecias.
disseste-me das injustiças do mundo.
disseste-me da frieza das decisões.
então, disseste-me que partirias
e eu jamais te veria.
parti antes de ti, pensando poupar-te e a mim,
mas logo vi o meu erro e ouvi-te.
disseste-me dos novos planos,
que eu te abandonei,
quando, na verdade, eu te deixei
por um grande sentimento.
disseste-me coisas imerecidas.
disseste-me que é frio o teu coração.
disseste-me que o amanhã não existe.
disseste-me que a vida termina antes de quatorze anos.

novamente eu parti,
dessa vez silenciosamente.
mas ecoam em meus ouvidos,
refletem-se nos meus olhos molhados
as tuas palavras ditas a mim e só a mim.
(e foi tudo tão breve…)

o que tu não me disseste,
porque tu não sabias,
é que fui eu quem te fez em flor.
fui eu quem cantou tua alma
e só eu te enxerguei por inteira.

hoje, já não me procuras,
mas tu, para mim, és toda a minha lembrança.
seguimos a “trilha menos usada”
e os teus olhos miram, agora,
outros e novos horizontes.
a mim, não dizes mais nada.
são os ventos dos trigais que me trazem
a lembrança dos teus cabelos negros,
e as nuvens que passam que me trazem
as imagens do teu vulto
e do teu sorriso aberto.
não posso ouvir os lamentos do mar
sem lembrar de ti;
tudo acontece exatamente
como tu, da primeira vez, me disseste…

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