Archive for August, 2007

o longe e o perto…

Posted in from the heart..., poetry, rui ribeiro couto on August 31, 2007 by gilrang

logo que a noite envolve em sombras o jardim,
parece que um mistério estranho me rodeia,
bocas de flores se entreabrem para mim,
e não sei de quem são estes passos na areia,
nem este murmurar de uma queixa sem fim.

como a seiva da terra alimenta as raízes,
uma seiva secreta enche meu coração.
deve ser o tal “gosto amargo de infelizes”,
plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
cujo travo provei em todos os países.

tudo que pude fiz para não ser assim,
mas não posso esquecer o longe pelo perto;
os que amei e perdi dormem dentro de mim;
a culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
logo que a noite envolve em sombras o jardim.

(Rui Ribeiro Couto)

anjo de outrora…

Posted in from the heart..., poetry, rui ribeiro couto on August 31, 2007 by gilrang

o santista rui esteves ribeiro de almeida couto nasceu em 1898. foi cronista, contista, romancista, ribeiro coutojornalista e poeta. trabalhou em vários jornais e frequentou a escola de direito do largo de são francisco, na cidade de são paulo. ribeiro couto morreu em paris, no ano de 1963.

o anjo de outrora, adormecido na minha alma,
acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
a lágrima caída ainda há pouco era dele.

foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
com o discreto pudor com que à porta da igreja
deixamos cair a esmola na mão de um pobre.

(Rui Ribeiro Couto)

disseste-me…

Posted in from the heart..., poetry on August 26, 2007 by gilrang

disseste-me dos campos de trigo
e da cor dos teus negros cabelos.
disseste-me do infinito e do tempo.
disseste-me de uma dor
e de um pensamento.
disseste-me, pela lágrima,
de um antigo tormento.
disseste-me de outras histórias
recheadas de elementos.
disseste-me dos caprichos,
das cidades, dos teus planos,
de como irias passar os teus últimos anos.
disseste-me da poesia
que cercava o teu dia
e das horas em claro
que passavas a temer.
disseste-me da tua infância
naquela fazenda distante,
onde as tuas lembranças ainda residem.
disseste-me das tuas vitórias
e das tuas derrotas.
disseste-me do sono que te rondava.
disseste-me, com carinho,
da neve caída na grama.
disseste-me da hera que brotava nas paredes,
disseste-me do fim da tua vida,
sem mesmo saberes se morrerás um dia.
disseste-me do beijo que eu jamais te neguei,
mas que também jamais te dei.
disseste-me dos amigos e da tua alegria
que eles notavam quando comigo falavas.
disseste-me da solidão quando estavas sozinha.
disseste-me das tuas festas,
do teu cansaço, dos teus sonhos.
disseste-me, contente, de uma conquista recente.
e te vi cair quando a notícia chegou.
disseste-me que era puro castigo
e que nada mais merecias.
disseste-me das injustiças do mundo.
disseste-me da frieza das decisões.
então, disseste-me que partirias
e eu jamais te veria.
parti antes de ti, pensando poupar-te e a mim,
mas logo vi o meu erro e ouvi-te.
disseste-me dos novos planos,
que eu te abandonei,
quando, na verdade, eu te deixei
por um grande sentimento.
disseste-me coisas imerecidas.
disseste-me que é frio o teu coração.
disseste-me que o amanhã não existe.
disseste-me que a vida termina antes de quatorze anos.

novamente eu parti,
dessa vez silenciosamente.
mas ecoam em meus ouvidos,
refletem-se nos meus olhos molhados
as tuas palavras ditas a mim e só a mim.
(e foi tudo tão breve…)

o que tu não me disseste,
porque tu não sabias,
é que fui eu quem te fez em flor.
fui eu quem cantou tua alma
e só eu te enxerguei por inteira.

hoje, já não me procuras,
mas tu, para mim, és toda a minha lembrança.
seguimos a “trilha menos usada”
e os teus olhos miram, agora,
outros e novos horizontes.
a mim, não dizes mais nada.
são os ventos dos trigais que me trazem
a lembrança dos teus cabelos negros,
e as nuvens que passam que me trazem
as imagens do teu vulto
e do teu sorriso aberto.
não posso ouvir os lamentos do mar
sem lembrar de ti;
tudo acontece exatamente
como tu, da primeira vez, me disseste…

l´albatros…

Posted in charles baudelaire on August 25, 2007 by gilrang

souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
qui suivent, indolents compagnons de voyage,
le navire glissant sur les gouffres amers.

a peine les ont-ils déposés sur les planches,
que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
comme des avirons traîner à côté d’eux.

ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule !
lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid !
l’un agace son bec avec un brûle-gueule,
l’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait !

le Poète est semblable au prince des nuées
qui hante la tempête et se rit de l’archer ;
exilé sur le sol au milieu des huées,
ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

(Charles Baudelaire)

encantamento…

Posted in abgar renault, from the heart..., poetry on August 20, 2007 by gilrang

abgar de castro araújo renault nasceu em barbacena, em 15/abr/1901. exerceu o a_renaultmagistério em colégio de belo horizonte e, depois, na universidade federal de minas gerais. transferindo sua residência para o rio de janeiro, lecionou no colégio pedro ii e na universidade do distrito federal, hoje chamada de unirio. foi secretário da educação do estado de minas gerais e ministro da educação e cultura. com a vida dedicada ao ensino, renault contribuiu para a cultura mundial participando de diversas comissões culturais e educacionais da unesco. foi tradutor de poemas nas línguas inglesa, alemã, francesa e espanhola. literato, ocupou a cadeira no. 12 da academia brasileira de letras. morreu em 31/dez/1995. um exemplo da sua lira é encantamento.

ante o deslumbramento do teu vulto,
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em luar a treva em que me oculto.

estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

é tua vida minha própria vida
e trago em mim tua alma adormecida . . .
mas, num mistério surdo que me assombra,

tu és, as minhas mãos, vaga, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra…

(Abgar Renault)

por que mentias?…

Posted in álvares de azevedo, from the heart..., poetry on August 19, 2007 by gilrang

por que mentias leviana e bela?
se minha face pálida sentias
queimada pela febre, e minha vida
tu vias desmaiar, por que mentias?

acordei da ilusão, a sós morrendo
sinto na mocidade as agonias.
por tua causa desespero e morro…
leviana sem dó, por que mentias?

sabe deus se te amei! sabem as noites
essa dor que alentei, que tu nutrias!
sabe esse pobre coração que treme
que a esperança perdeu por que mentias!

vê minha palidez- a febre lenta
esse fogo das pálpebras sombrias…
pousa a mão no meu peito! eu morro! eu morro!
leviana sem dó, por que mentias?

(Álvares de Azevedo)

aceitação…

Posted in cecília meirelles, from the heart..., poetry on August 19, 2007 by gilrang

é mais fácil pousar os ouvidos nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar
o rumor dos teus passos.

é mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

(Cecília Meirelles)