Archive for July, 2007

Bucólica nostálgica

Posted in adélia prado on July 22, 2007 by M.

BUCÓLICA NOSTÁLGICA
Adélia Prado

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

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“I’m lonely in London, London is lovely so”

Posted in caetano veloso on July 18, 2007 by M.

London, London
Caetano Veloso

I’m wandering round and round, nowhere to go
I’m lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I’m wandering round and round, nowhere to go
While my eyes go looking for flying saucers in the sky
Oh Sunday, Monday, Autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It’s good at least, to live and I agree
He seems so pleased, at least
And it’s so good to live in peace
And Sunday, Monday, years, and I agree

While my eyes go looking for flying saucers in the sky
I choose no face to look at, choose no way
I just happen to be here, and it’s ok

Green grass, blue eyes, grey sky
God bless silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say

While my eyes go looking for flying saucers in the sky

du im Voraus…

Posted in from the heart..., poetry, rainer maria rilke on July 15, 2007 by gilrang

rilke.gifrené karl wilhelm johann josef maria rilke é conhecido como um dos mais importantes poetas alemães do século XX. nascido em praga, em 1875, filho único de um agente ferroviário e de uma mãe oriunda da aristocracia industrial da bohemia. incentivado por seus pais, rilke entrou na universidade onde estudou literatura, arte, história e filosofia. mudou seu nome para rainer a pedido de uma amante casada, com quem viveu uma intensa relação e de quem sofreu grande influência, mesmo após a separação entre eles. aliás, todas as suas relações amorosas pareceram durar por toda a sua vida. rilke faleceu em dezembro de 1926 com o diagnóstico de leucemia. ele influenciou diversos poetas modernistas brasileiros.

du im Voraus
verlorne Geliebte, Nimmergekommene,
nicht weiß ich, welche Töne dir lieb sind.
nicht mehr versuch ich, dich, wenn das Kommende wogt,
zu erkennen. alle die großen
Bildern in mir, im Fernen erfahrene Landschaft,
Städte und Türme und Brücken und un-
vermutete Wendung der Wege
und das Gewaltige jener von Göttern
einst durchwachsenen Länder:
steigt zur Bedeutung in mir
deiner, Entgehende, an.

ach, die Gärten bist du,
ach, ich sah sie mit solcher
Hoffnung. ein offenes Fenster
im Landhaus—, und du tratest beinahe
mir nachdenklich heran. gassen fand ich,—
du warst sie gerade gegangen,
und die spiegel manchmal der Läden der Händler
waren noch schwindlich von dir und gaben erschrocken
mein zu plötzliches Bild. —wer weiß, ob derselbe
Vogel nicht hinklang durch uns
gestern, einzeln, im Abend?

segue uma tradução para o inglês.

you, beloved, who were lost
before the beginning, who never came,
i do not know which sounds might be precious to you.
no longer do I try to recognize you, when, as a surging wave,
something is about to manifest. all the huge
images in me, the deeply-sensed far-away landscapes,
cities and towers and bridges and un-
suspected turns of the path,
the powerful life of lands
once filled with the presence of gods:
all rise with you to find clear meaning in me,
your, forever, elusive one.

you, who are all
the gardens I’ve ever looked upon,
full of promise. an open window
in a country house—, and you almost stepped
towards me, thoughtfully. sidestreets I happened upon,—
you had just passed through them,
and sometimes, in the small shops of sellers, the mirrors
were still dizzy with you and gave back, frightened,
my too sudden form. —who is to say if the same
bird did not resound through us both
yesterday, separate, in the evening?

(Rainer Maria Rilke)

canção…

Posted in cecília meirelles, from the heart..., poetry on July 14, 2007 by gilrang

se de novo passares,
não procures por mim.
preservemos o fim
dos saudosos olhares.

bem sei que a noite e os rios
engendram muita flor
parecida com o amor,
em seus ermos sombrios.

mas nem penso aonde vais.
adormeço nos prados
com os lábios ocupados
no néctar do jamais.

um tempo sem fronteiras
se abriu diante de nós.
quando tiveram voz
as verdades inteiras?

aí, talvez, noutro instante
chegue perto de ti,
para ver que perdi
minha alma antiga — e cante.

talvez chegue, talvez,
mas que não seja agora,
quando quem foste chora
aquilo que não vês.

uma vaga canção
cantarei com doçura,
e será morte escura
sobre o meu coração.

(Cecília Meirelles)

resíduo…

Posted in cecília meirelles, from the heart..., poetry on July 14, 2007 by gilrang

quando passarem os dias
e não mais se avistar
nosso rosto e o sereno
modo nosso de olhar,

e a nossa evaporada
voz não viver mais no ar,
e as sombras esquecerem
a que era a do nosso andar,

vai ser doce pensar-se,
— em que secreto lugar? —
nos sonhos que inventávamos,
ternos e devagar,

no perfil que tivemos,
tão fino e singular,
e no louro e nas rosas
que o poderiam coroar,

e nos vergéis que sentíamos,
quando íamos a par,
ouvindo o amor que nunca
chegou a sussurar.

(Cecília Meirelles)

anjo da guarda…

Posted in cecília meirelles, from the heart..., poetry on July 14, 2007 by gilrang

solidão que outros miram com desprezo,
silêncio que aos demais aflige tanto,
um pensamento na vigília aceso,

um coração que não deseja nada,
– esse é o meu mundo a que chegas, onde a vida
só do sonho de ser é sustentada.

debruço-me e não vejo de que parte
podes ter vindo, nem por que motivo.
e a coragem perdi de perguntar-te.

deixo-te isento. não serás cativo
de quem não quer te ver no cativeiro
de enigmas em que voluntária vivo.

mas não partes; que, cego e sem memória,
por instinto conheces teu caminho
e vens e ESTÁS, alheio à tua história.

e és como estrela, em séculos movida
que num lugar do céu foi colocada
por um simetria não sabida.

(Cecília Meirelles)

monólogo…

Posted in cecília meirelles, from the heart..., poetry on July 13, 2007 by gilrang

para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
para onde iriam, quando me escutavas?
e quando me escutaste? – nunca.

perdido, perdido. ai, tudo foi perdido!
eu e tu perdemos tudo.
suplicávamos o infinito.
só nos deram o mundo.

de um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
e hoje, que barca te socorre?
que deus te abraça? com que deus lutas?

eu, nas sombras. eu pelas sombras,
com as minhas perguntas.
para quê? para quê? rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.

(Cecília Meirelles)