Archive for June, 2007

camões – sonetos – iv…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on June 30, 2007 by gilrang

oh! quão caro me custa o entender-te,
molesto Amor, que, só por alcançar-te,
de dor em dor me tens trazido a parte
onde em ti ódio e ira se converte!

cuidei que, para em tudo conhecer-te,
me não faltasse experiência e arte;
agora vejo n’alma acrescentar-te
aquilo que era causa de perder-te.

estavas tão secreto no meu peito
que eu mesmo, que te tinha, não sabia
que me senhoreavas deste jeito.

descobriste-te agora; e foi por via
que teu descobrimento e meu defeito,
um me envergonha e outro me injuria.

(Luis Vaz de Camões)

camões – sonetos – iii…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on June 30, 2007 by gilrang

já não sinto, Senhora, os desenganos
com que minha afeição sempre tratastes,
nem ver o galardão que me negastes,
merecido por fé, há tantos anos.

a mágoa choro só, só choro os danos
de ver por quem, Senhora, me trocastes;
mas em tal caso vós só me vingastes
de vossa ingratidão, vossos enganos.

dobrada glória dá qualquer vingança
que o ofendido toma do culpado,
quando se satisfaz com cousa justa;

mas eu, de vossos males e esquivança
– de que agora me vejo bem vingado -,
não o quisera eu tanto à vossa custa.

(Luis Vaz de Camões)

camões – sonetos – ii…

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on June 30, 2007 by gilrang

doce contentamento já passado,
em que todo o meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?

quem cuidou que se visse neste estado
naquelas breves horas de alegria,
quando minha ventura consentia
que de enganos vivesse meu cuidado?

fortuna minha foi cruel e dura
aquela, que causou meu perdimento,
com a qual ninguém pode ter cautela.

nem se engane nenhüa criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir do que ordena sua estrela.

(Luis Vaz de Camões)

camões – sonetos – i …

Posted in from the heart..., luis de camões, poetry on June 30, 2007 by gilrang

desta última flor do Lácio, inculta e bela, não se pode omitir,camões a qualquer tempo, aquele que prima pelo rigor das suas rimas e pela primazia de cantar em tão lindos versos a pátria e o amor. luis vaz de camões nasceu em uma data incerta, entre os anos de 1524 e 1525, e faleceu em 10 de junho de 1580. essa sua curta existência não o impediu de alcançar um lugar, na língua portuguesa, equivalente aos grandes poetas como alighieri e shakespeare. mais que o poeta d´Os Lusíadas, camões escreveu sonetos belíssimos. um deles é mostrado aqui.

Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
não cuides de forçar-me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta-te co as lágrimas que choro.

(Luis Vaz de Camões)

deve estar morando em marte…

Posted in from the heart... on June 29, 2007 by gilrang

samba da pergunta

ela, agora, mora só no pensamento,
ou, então, no firmamento,
em tudo que no céu viaja,
pode ser um astronauta,
ou ainda um passarinho,
ou virou um pé de vento,
ou pipa de papel de seda,
ou, quem sabe, um balãozinho…

pode estar num asteróide,
pode ser a estrêla dalva
que daqui se olha,
deve estar morando em marte,
nunca mais se soube dela,
desapareceu…

(Pingarrilho / Marcos Vasconcelos)

minha senhora…

Posted in from the heart... on June 28, 2007 by gilrang

minha senhora,
onde é que voce mora?
em que parte desse mundo?
em que cidade escondida?
dizei-me que, sem demora,
lá também quero morar…

onde fica essa morada?
em que reino, qual parada?
dizei-me por qual estrada
é que eu devo caminhar…

minha senhora,
onde é que voce mora?
venho da beira da praia,
tantas prendas eu lhe trago –
pulseira, sandália e saia
sem saber como entregar….

quero chegar sem demora
nessa cidade encantada,
dizei-me logo, senhora,
que essa chegança me agrada…

(Caetano Veloso)

pudesse eu…

Posted in from the heart..., poetry, sophia de mello breyner andresen on June 23, 2007 by gilrang

pudesse eu não ter laços nem limites,
ó vida de mil faces transbordantes,
para poder responder aos teus convites
suspensos na surpresa dos instantes!

(Sophia de Mello Breyner Andresen)