negrinho

verissimoUm trecho comentado do livro O Tempo e o Vento, parte I, O Continente, vol.2, de Erico Verissimo (os comentários vão em itálico).

Noite de 26 de Junho de 1895.

No quarto do Sobrado, cercado por vários dias pelos homens do velho Bento Amaral, os meninos Toríbio e Rodrigo Cambará pedem a Fandango, capataz do Angico, para lhes contar uma história. Fandango se diz cansado, ao que Toríbio lhe observa:

– “Ué… Tu conta é com a boca, não com a perna. Tua boca também está cansada?”

Fandango, após regatear com os meninos, decide contar a história do Negrinho do Pastoreio.

“….

– ‘Conta!’ – insistem os meninos.

– ‘Está bem, xaroposos! Está bem.

Fandango recosta-se na cama e com a sua voz especial de contar casos, uma voz pausada de conversa ao pé do fogo, começa:

– ‘Era uma vez um estancieiro podre de rico e louco de tão malvado….´

….”

E Fandango conta a história entrecortada por complementos dos dois meninos que já a tinham ouvido dele muitas e muitas outras vezes. Vou omitir os detalhes, pois não são tão importantes assim, exceto a devoção que o Negrinho tinha pela Virgem. Conta-se, no Rio Grande do Sul, que, sempre que alguém perde algo, deve acender uma vela para o Negrinho levá-la para o altar da Virgem. Em troca, ele traz de volta o que se perdeu.

A história vai terminando, quando entra no quarto Maria Valéria, tia dos meninos, com a refeição da noite – gomos de laranja e farinha – o que restou depois de vários dias de cerco do Sobrado pelos maragatos.

“….. 

– ‘Venham comer’ – diz ela – ‘Laranja e farinha. Foi o que se pôde arranjar.’

– ‘Espera, madrinha’ – diz Rodrigo. – ‘O Fandango está contando a história do Negrinho.’

…..

– ‘Já estou no fim, dona.’

…..

– ‘E depois, Fandango?’ – pergunta Rodrigo.

…..

– ‘E ele anda por aí, Fandango?’ – pergunta Rodrigo.

– ‘Diz-que.’

Toríbio fica pensativo por um instante e depois indaga:

– ‘E essa história é de verdade ou de mentira?’

Fandango ergue-se devagarinho, respondendo:

– ‘É uma história linda, chiquito.’

Depois, dirigindo-se a Maria Valéria, murmura:

– ‘Acho que vou acender hoje uma vela pro Negrinho pra ele trazer de volta pra casa o meu neto que se perdeu nessa revolução.’ – Sorri. Fecha um olho. – ‘E pro afilhado da Virgem me devolver outras coisas, muitas outras coisas que tenho perdido nesta vida.’

….”

 verissimo´s signature

Não sei quanto ao leitor amigo, mas eu, que em alguns dias estarei em POA por um breve período, vou acender também uma vela pro Negrinho do Pastoreio, pois ultimamente eu também andei perdendo muita coisa em minha vida… Quem sabe ele acha e as traz de volta!…

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