via crucis…

I. A covardia dos homens.

Olho a multidão à minha frente e o homem que a ela se dirige aos gritos. Meu pensamento está distante e não lhe ouço a voz. O céu de nuvens carregadas está cinzento. Ele se vira para mim e, num gesto teatral, lava as suas mãos. Pela primeira vez eu ouço o que ele diz e me chama de inocente. Por que eu seria inocente? De que me acusam?

II. A minha cruz.

Saimos do salão e descemos as escadarias. Com minhas mãos amarradas a um tronco, eu me desequilibro. Os homens que me cercam me auxiliam. Chegamos ao pátio e, lá, retiram as cordas que me amarram. Dão-me uma estrutura de paus amarrados em cruz. Dizem-me que esta será a minha cruz e que devo carregá-la de agora em diante. Ela é pesada e eu, fraco por essa agonia durar desde ontem, quando me acorrentaram no Jardim, cambaleio e não consigo erguê-la. Um dos homens que me conduz me ajuda a levantá-la, mas deixa todo o peso recair sobre os meus ombros. Tenho fome e sede. Cravam-me na cabeça um anel feito de várias voltas de um caule espinhoso. Além do meu suor, agora perco o meu sangue.

III. Minha queda.

O que eu fiz para passar por isto? Não me recordo de ter levantado a voz recentemente contra quem quer que fosse. Não ofendi meus amigos e nem dos meus inimigos me queixei. Cheguei aqui para as festas. Descansava quando me chegaram e me acorrentaram. Eu transpirava de nervoso, tanto que enxarquei minha túnica e meus pés marcavam o caminho com a umidade do suor que me escorria pelas pernas. Não me deram o que beber desde então. Nem do que comer. Ainda sinto fome e sede. Atordoado, prostro-me no chão e a cruz cai sobre mim. Sinto dores em todo o corpo. Ajudam-me e eu levanto. Volto a sustentar o peso daquela estrutura. Alguns homens me empurram entre a multidão. Meus pés estão feridos. Minha boca está seca.

IV. Entre a multidão, eu vejo a minha mãe.

A mulher que chora entre os homens e mulheres que, gritando, me cercam é a minha mãe. Chora copiosamente. Faz uma figura triste. Eu a vejo e lembro de quando eu, menino, corria até ela para aplacar minha sede e minha fome. Não a deixam se aproximar de mim, mas ela grita o meu nome. Eu sorrio para ela. Nos olhamos por alguns segundos e ela compreende a minha dor. Não sei por quanto tempo terei que suportar esse castigo, nem o que me aguarda ao fim dele.

V. Um homem é chamado para me ajudar.

Do meio da multidão, aqueles que me obrigam a esse sacrifício retiram um pobre inocente para me ajudar a carregar o peso sobre as minhas costas. Eu fico de pé e tento aliviar a dor que sinto nas minhas costas, nos meus ombros. O tempo passa e a sede e a fome aumentam. Não entendo porque querem me poupar do peso. Peço água e riem de mim.

VI. Outro rosto conhecido.

Com o estranho a me ajudar, posso ficar de pé e olhar aqueles que gritam contra mim. Reconheço o rosto daquela mulher que se aproxima. Ela me enxuga o suor do rosto e me sorri. A suavidade e o frescor daquele tecido macio me dão uma agradável sensação. Refletido nos seus olhos eu vejo o meu rosto inchado. Ela me mostra o pano molhado que ela passou na minha testa. Tento passá-lo nos meus lábios ressecados. Empurram-me para frente. Mandam-me ajudar o homem que carrega a cruz por mim. Agora, somos os dois a carregá-la.

VII. A segunda queda.

Não resisto ao peso e me desequilibro novamente. Tombo e isso irrita meus algozes. Chicoteiam-me as costas e as pernas. Levanto-me e torno a cair. Minhas pernas tremem. Parece que já nem transpiro mais.

VIII. Uma casa. 

Passo pelas mesmas ruas que percorri no dia de ontem, de manhã. Naquela taberna, eu fiz uma refeição há dois dias. Ainda lembro do rosto das mulheres que me serviram. Elas estão à porta da casa e olham espantadas para a minha figura. Aquela ali me deu vinho a beber, a outra me trouxe um naco de pão e um caldo quente para eu me aquecer. A mais velha é a dona da taberna. Eu as olho e lhes imploro com os olhos. Umas me viram o rosto. Outras choram. Eu sinto dor e sede.

IX. Nova queda.

Começamos a subir uma ladeira que leva ao alto do monte. Tremem as minhas pernas. Treme o meu corpo inteiro. A sede não passa. Estou tonto. Não compreendo as palavras dirigidas a mim. Meus ouvidos doem. Minhas orelhas estão cheias do meu sangue coagulado que escorreu do alto da minha cabeça ferida pelos espinhos. Uma agonia profunda abate o meu corpo. Vou ao chão numa nova queda. O homem que me auxilia também cai com o súbito peso da cruz sobre as suas costas. Finalmente me trazem um pano molhado e eu o espremo na boca. Mas não é água que me cai na língua e, sim, um líquido grosso, salgado e amargo como vinagre. Cuspo tudo ao chão. Não vejo mais a minha mãe. Onde ela estará? O que estará pensando?

X. As minhas roupas.

Paramos no alto do monte. A cruz cai sobre o meu peito. Minhas roupas estão em farrapos. Eles me despem e me deixam apenas um pano amarrado na cintura. Todos gritam à minha volta. Não sei o que irão me fazer, mas nada poderá ser tão doloroso quanto o que já passei.

XI. Os ferros.

A cruz foi deitada no chão. O homem que me ajudava sumiu. Deitam-me, agora, sobre ela e amarram os meus braços e as minhas pernas. O Sol no meu rosto e o sangue coagulado nas minhas sombrancelhas não me deixam ver o que acontece ao meu lado. Pelo menos não tenho que carregar o peso da cruz que está sob mim. De repente, uma dor lancinante e uma batida de ferros. Sinto os ossos se quebrando quando minha mão direita é trespassada por um cravo, tão grosso que toma quase toda a palma da minha mão. Mais sangue jorra. Tenho as mesmas sensações desagradáveis quando repetem na mão esquerda o que me fizeram com a direita. Ainda tenho sede. Respiro profundamente e tento pensar o que fiz para merecer isto. É, então, que juntam meus pés e cravam-lhes mais um ferro. A cruz é erguida entre outras duas que lá já estavam quando chegamos. A dor é insuportável. Meus braços me sustentam. Meus pés queimam. Pendo a minha cabeça para o lado. Avisto, então, a minha mãe. Não sei quantas horas se passam. Todos me olham, inclusive os dois homens que me ladeiam. Olho para o céu de nuvens carregadas. Chove. A chuva lava o meu corpo cansado e me molha os cabelos. Umas gotas de chuva escorrem para dentro da minha boca e eu as sorvo, mas sem avidez. Não consigo erguer minha cabeça. Mas já não sinto dor. Observo os que me cercam. Fecho os olhos. Não vejo mais nada. Sinto que algo roça o meu peito e sinto um alívio imediato de tudo aquilo.

XII. Meu sono.

Sinto que me carregam para algum lugar. Não vejo nada. Quero abrir os olhos e não consigo. Quero perguntar se tudo acabou, mas minha voz não sai. Enrolam-me em um pano macio e frio. Continuo dormindo.

XIII. Minha cama.

Um calor profundo me cerca. Estou ali e mal posso me mexer. Parece que estou sob toneladas de terra. a pressão sobre o meu peito me desencoraja.

XIV. O despertar.

Acordo e já se passaram alguns dias. Quantos, não sei dizer. Levanto e dobro o pano que me envolvia. Saio para procurar os amigos. Ainda tenho sede.

One Response to “via crucis…”

  1. Velha Amiga Says:

    Magistral decrição do sentimento que nos assola de forma inexplicável. A impotência perante os demandos e a consciência de que nada fizemos para merecermos esta via crucis.
    O reconhecimento de que nada há a se esperar avante e a dolência como única saída.
    Busca por apoio amigo e a sede insáciável como destino.
    MAGISTRAL!!!!

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